Tecnologia leva tratamento médico a presídios de forma remota

Voluntários do projeto Amor que Cura no Cárcere são treinados para atender detentos no Rio JAPERI - Desde 2017, a hematologista Mar...


Voluntários do projeto Amor que Cura no Cárcere são treinados para atender detentos no Rio

JAPERI - Desde 2017, a hematologista Marilza Campos de Magalhães dedicava um dia do mês para seguir, em caravana com outros médicos, rumo a presídios no estado do Rio de Janeiro. Foram à Penitenciária Talavera Bruce, em Bangu, à Cadeia Pública Cotrim Neto, em Japeri, ao Presídio Evaristo de Moraes, em São Cristóvão. A última ação foi em fevereiro deste ano, no Complexo Penitenciário de Bangu. Em março, iniciada a quarentena em decorrência da pandemia do novo coronavírus, as visitas aos presídios foram suspensas. O grupo de voluntários, então, precisou resolver a equação de como manter a assistência médica nos presídios sem poder acessá-los presencialmente.

Num sábado de abril, a médica propôs ao Frei Paulo Batista, que fundou o projeto, que tentassem a telemedicina. Havia, no entanto, uma questão: como viabilizar a entrada de computadores nos presídios de forma segura e, mais, como custear a ideia. Na segunda-feira, dois dias depois da reunião, o frei voltou com a solução. Ele havia obtido o patrocínio para a compra de três computadores e, também, a doação do desenvolvimento de uma plataforma específica para o atendimento das pessoas encarceradas.

Nas próximas semanas, médicos do projeto, batizado de Amor que Cura no Cárcere, retomam o trabalho, atendendo pela primeira vez o Instituto Penal Cândido Mendes, no Centro do Rio. Foi lá onde ocorreu a primeira morte de um detento por Covid-19 no estado, em abril. Com a pandemia, a Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) realocou presos de grupos de risco em unidades específicas. O Instituto Penal Cândido Mendes passou a abrigar pessoas com mais de 60 anos e hoje tem cerca de 300 detentos.

— A situação nos presídios de forma geral está muito ruim. Os pacientes não têm mais recebido visitas de familiares, e o atendimento médico permanece escasso. Na reunião de nosso grupo, quando levantei a ideia da telemedicina, sabíamos que haveria uma certa dificuldade, porque essas coisas custam dinheiro, e a missão vive de doações — diz a hematologista. — Além disso, estávamos nos perguntando se e como poderíamos entrar com computadores dentro de um presídio sem ferir as normas de segurança.

LOGÍSTICA DE COMUNICAÇÃO

O grupo teve a questão resolvida por uma start-up, a Conexa Saúde, que desenvolve plataformas para telemedicina e decidiu doar o software para que as consultas sejam realizadas com a preservação do sigilo de dados, além de possibilitar a geração de prontuários e a emissão de receitas. Desde então, a empresa vem treinando médicos e enfermeiros para que possam usar a ferramenta no Instituto Penal Cândido Mendes.

— O desafio é logístico e de operação, porque precisamos garantir uma infraestrutura no presídio que permita a comunicação, desde internet a computadores com qualidade para as teleconsultas. Já a operação no local é realizada por enfermeiros que vão fazer a triagem e conectar os detentos com os médicos — explica Guilherme Weigert, CEO da start-up.

O atendimento à distância era algo improvável para o fundador do projeto, Frei Paulo Batista, que é diretor-geral do Hospital São Francisco na Providência de Deus, na Tijuca. O Amor que Cura começou sua atuação em 2015 justamente indo a um local onde se sabia haver necessidade de atenção à saúde — o Jardim Gramacho, nos arredores daquele que já foi o maior lixão da América Latina. Foi depois, em 2017, que surgiu o braço Amor que Cura no Cárcere, destinado às visitas mensais aos presídios do Rio.

Nelas, os voluntários se deslocam de ônibus para um dia de atendimento na penitenciária indicada pelo governo do estado. Muitas vezes, um caminhão os acompanha, levando medicamentos e mantimentos, que entram ou não nos presídios, a depender da autorização de suas diretorias.

— Quando começamos a pensar em manter a execução do projeto durante a pandemia, observamos que a pessoa em situação de privação de liberdade tem uma condição completamente diferente das outras pessoas que usam o serviço de telemedicina. O cliente tradicional da telemedicina é alguém muito autônomo, com celular próprio, e-mail, senhas de acesso. Agora, o “cliente” é o preso, que está sob custódia do Estado e não tem nada em seu nome. É um desafio diferente — diz Frei Paulo.

Solução a longo prazo

Para ele, a telemedicina nos presídios poderia se tornar política de governo. Com a experiência de quem percorre penitenciárias mensalmente, ele afirma que, embora a lei exija que os institutos penais tenham equipe médica, a realidade é outra.

— Dentro das unidades prisionais, em geral não há médicos, e enfermeiros heróis se desdobram, mas falta tudo: insumos, medicamentos, além da dificuldade para encaminhamento de pacientes a hospitais e clínicas — lamenta Frei Paulo. — Acredito que a telemedicina pode ser uma solução permanente dentro dos presídios. Depende muito da boa vontade do Estado, claro. Além do voluntariado, pode virar um programa de governo. Nós, da missão Amor que Cura, preferimos o contato presencial. Mas acredito que podemos ter os dois modelos simultaneamente.

Uma das veteranas do projeto — hoje são mais de 300 voluntários —, a hematologista Marilza Campos de Magalhães ainda prefere o atendimento presencial (“Nosso trabalho voluntário é de peito aberto, cara a cara com o presidiário, contato direto”) e encara a telemedicina nos presídios como “uma urgência dentro de uma emergência”:

— A gente circula, vai nos meandros dos presídios, nas solitárias. É um contato aberto. Esse contato que vamos ter agora é totalmente diferente. Espero que saia tudo muito bem e sei que tudo o que fizermos vai ser melhor do que nada. É uma pequena ginástica levar a telemedicina até os detentos. Não sabemos o grau de instrução, o grau de entendimento e as informações que a pessoa que está do outro lado da tela pode absorver. O que estamos fazendo é algo pioneiro, e é o que vai ajudar os detentos neste momento.

Via: G1

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